Angels Or Devils. Dishwalla. "E eu posso ver a dor em você. E posso ver o amor em você. Mas lutar contra todos os demônios levará tempo, isso levará tempo (...) Eu sempre me preocuparei com as coisas que podem nos tornar frios." Eu disse uma vez que somos uma erosão invertida. Ao invés de começarmos brutos e vir algo nos limpando, começamos limpos e viramos um amontoado de coisas. A nossa personalidade realmente não passa de um amontoado de coisas que deram certo, que não deram certo, que eram pra ter dado certo, que viraram traumas e por aí vai. Não tem nada de diamante lapidado. Somos um torrão de terra feio, sujo e que não para de crescer. Não é uma visão pessimista. Não podemos ser hipócritas e sair dizendo que a vida é brilhante. Somos guiados por aprendizados e pancadas anteriores. E, pessoalmente, não vejo nada de belo nisso. Só produz buracos, marcas, manchas, caroços e coisas do gênero. A quem tem uma vida 'diamante' linda e maravilhosa, que nunca sofreu um percalço no caminho, meus parabéns. E cai fora daqui, que não é seu lugar. Obrigado. Pois então. Não acredito em lapidação. Acredito em acúmulo, alteração. Porque nada vai embora. Se vai, deixa marcas. E vamos nos modificando, adaptando. Uma amálgama de dores, risos, lições, medos. É aí que entra o assunto de hoje. Com todos os traumas enxertados em nossa pele, nos encarando diariamente, temos como acção básica, ou instintiva, evitar novas feridas. Eu defendi este modo de levar a vida alguns posts atrás. Mas para toda regra há uma exceção. E aqui vai a nossa. Viver sempre fugindo de fantasmas fatalmente nos jogará em um mar de gelo, onde a barca da emoção já se perdeu na neblina e a água gélida da razão nos afoga, implacável. Sim. Correr de sentimentos que outrora nos feriram inevitavelmente nos tornará frios por dentro. Abdicamos por tanto tempo das emoções que esquecemos como é sentí-las. Acostumamos com a ausência e não nos importamos mais com isso. Sei bem que não é de uma hora para outra que superamos nossos receios e traumas. Mas não devemos nos entregar a esse hábito de preferir o medo à aventura. Cedo ou tarde devemos arriscar mais uma vez. Ao menos tentar arriscar. Porque em um mundo dominado pela indiferença, conviver com a frieza de sentimentos é, definitivamente, o fundo do poço. Nosso coração (e suas surpresas, boas ou más), é nossa única esperança de que viver pode valer a pena. Privá-lo do calor, da ansiedade, da dúvida, do medo, da alegria ou da tristeza é declarar-se morto. Morto e frio. Muito frio. |