FRIO? NUNCA!

"And I can see the pain in you
And I can see the love in you
But fighting all the demons wil take time
It will take time
(...)
I always gonna worry about the things that could make us cold."

Angels Or Devils. Dishwalla.
"E eu posso ver a dor em você. E posso ver o amor em você. Mas lutar contra todos os demônios levará tempo, isso levará tempo (...) Eu sempre me preocuparei com as coisas que podem nos tornar frios."

Eu disse uma vez que somos uma erosão invertida. Ao invés de começarmos brutos e vir algo nos limpando, começamos limpos e viramos um amontoado de coisas. A nossa personalidade realmente não passa de um amontoado de coisas que deram certo, que não deram certo, que eram pra ter dado certo, que viraram traumas e por aí vai. Não tem nada de diamante lapidado. Somos um torrão de terra feio, sujo e que não para de crescer.

Não é uma visão pessimista. Não podemos ser hipócritas e sair dizendo que a vida é brilhante. Somos guiados por aprendizados e pancadas anteriores. E, pessoalmente, não vejo nada de belo nisso. Só produz buracos, marcas, manchas, caroços e coisas do gênero. A quem tem uma vida 'diamante' linda e maravilhosa, que nunca sofreu um percalço no caminho, meus parabéns. E cai fora daqui, que não é seu lugar. Obrigado.

Pois então. Não acredito em lapidação. Acredito em acúmulo, alteração. Porque nada vai embora. Se vai, deixa marcas. E vamos nos modificando, adaptando. Uma amálgama de dores, risos, lições, medos. É aí que entra o assunto de hoje.

Com todos os traumas enxertados em nossa pele, nos encarando diariamente, temos como acção básica, ou instintiva, evitar novas feridas. Eu defendi este modo de levar a vida alguns posts atrás. Mas para toda regra há uma exceção. E aqui vai a nossa.

Viver sempre fugindo de fantasmas fatalmente nos jogará em um mar de gelo, onde a barca da emoção já se perdeu na neblina e a água gélida da razão nos afoga, implacável.
Sim. Correr de sentimentos que outrora nos feriram inevitavelmente nos tornará frios por dentro. Abdicamos por tanto tempo das emoções que esquecemos como é sentí-las. Acostumamos com a ausência e não nos importamos mais com isso.
Sei bem que não é de uma hora para outra que superamos nossos receios e traumas. Mas não devemos nos entregar a esse hábito de preferir o medo à aventura. Cedo ou tarde devemos arriscar mais uma vez. Ao menos tentar arriscar.

Porque em um mundo dominado pela indiferença, conviver com a frieza de sentimentos é, definitivamente, o fundo do poço.
Nosso coração (e suas surpresas, boas ou más), é nossa única esperança de que viver pode valer a pena. Privá-lo do calor, da ansiedade, da dúvida, do medo, da alegria ou da tristeza é declarar-se morto.

Morto e frio. Muito frio.



Escrito por Thiago às 21h40
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  AMANDO A DOR

"It's gonna hurt
And I love the pain."

Miss You Love. Silverchair.
"Isso vai doer. E eu adoro a dor."

Sim. Eu amo a dor.
A dor é inspiradora.
Não toda espécie de dor. Como já disse em algum post anterior, não há espaços para masoquismos aqui.

A dor que falo é aquela do aperto no peito. Aquela vontade de se rasgar ao meio e jogar tudo para fora. Aquela sensação de que existe algo dentro de nós muito maior do que realmente podemos suportar.
É a dor do amor difícil. A dor da saudade. A dor do 'querer e não ter'. A dor que pegamos com nossas próprias mãos e nos desesperamos se tentarem tirá-la de nós.

É a dor dos poetas.
Não foi o amor por Maria que inspirou Vinicius de Morais a escrever o Soneto de Contrição. Foi a dor causada por esse amor. Não só o mestre Vinicius. Milhares e milhares de pessoas são conduzidas diariamente por essa dor sem saber.

Nós buscamos essa dor. Ou melhor, não buscamos.
Ela está em todos os fatores que temos como meta de vida, em tudo que necessitamos. Seja a saudade de um amor bom, seja o nervosismo em um novo emprego, seja a ansiedade pelo nascimento de um filho...
Ela é ampla, e muitos a tomam como algo indefinido.
Mas eu a defino como Dor.
A dor boa.
A dor que faz-nos sentir vivos.

Como já cantou Johnny Rzeznik em Iris:
"Sim, você sangra apenas para saber que está vivo."



Escrito por Thiago às 23h02
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